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A dor de Jeremias

Jeremias era um sujeito mais de fé do que de religião e acreditava — sem saber explicar o porquê — que Deus criou primeiro uma forma de barro inerte, vazia e imoral, e só depois soprou a vida (leia-se: a alma) dentro de tal criatura.

Jeremias às vezes se sentia culpado por não ter tido, na vida, grandes dificuldades para depois poder contá-las com glória e regozijo. A verdade é que não tivera uma infância e uma adolescência nem difíceis nem fáceis. Era de classe média: não tinha os luxos dos ricos, tampouco passava pelas dificuldades dos pobres. Isso era algo que o incomodava verdadeiramente: ser médio. Passada a adolescência, Jeremias ficou rico “de carona”, como costumava dizer: virou sócio na empresa de seu melhor amigo de faculdade, e a empreitada fora maravilhosamente bem-sucedida. Para que a analogia seja mais justa, digamos que Jeremias ficou rico de carona, mas num fusca velho e caindo aos pedaços, que muitas vezes ele próprio teve de consertar, trocar peças e empurrar quando o motor falhava.

O fato é que, hoje, era já um homem rico e gozava de boa saúde.

A vida de Jeremias era exageradamente perfeita, boa até demais, como diriam os antigos. Ele tinha dinheiro, morava numa cobertura na parte boa da orla de Florianópolis, tinha um carro esportivo e uma moto — hobby que muito apreciava — na garagem; tinha um bom casamento, embora até então sem filhos, tinha um corpo razoável, não era feio, tinha pais vivos e que o amavam. Tinha tudo. Não tinha, apenas, emoção. Estava apático, mesmo com tudo aquilo.

Embora não fosse religioso, um dia, ao deitar-se, em vez de murmurar agradecimentos vagos e pegar no sono antes de poder dizer amém, Jeremias fez um pedido especial: suplicou a Deus que sua vida tivesse alguma emoção.

Jeremias passou dias e dias sem qualquer resposta e acabou por esquecer o desejo. Os negócios iam bem, sua empresa estava em processo de expansão, e ele se sentia até feliz por fazer cada vez mais parte dela, e ela dele. Planejava ter filhos com a esposa. Chegou a ir a uma concessionária da BMW para trocar seu carro por um ainda melhor.

Os dias se passaram, de fato.

Numa memorável reunião, depois de uma semana estressante em que não conseguira se alimentar direito nem dedicar algum tempo a si mesmo, Jeremias sentiu-se mal ao fim de um diálogo qualquer e pediu licença aos demais sócios para se ausentar. Foi até seu escritório, fechou a porta à chave, sentou-se em sua confortável poltrona de couro marrom e pôs-se a entender-se melhor. Passados alguns instantes, percebeu que tinha mesmo era vontade de evacuar. Dirigiu-se ao lavabo do próprio escritório, fechou a porta — irracionalmente — também à chave, sentou-se no vaso sanitário sem prestar atenção no engraçado barulho acolchoado que o assento fazia e aguardou. Aguardou mais do que habitualmente aguardava. Na verdade, teve de aguardar tanto que começou a fazer força para, enfim, vislumbrar a iminência da evacuação.

Eis que, assim que iniciado o ato, Jeremias sentiu uma dor lancinante na região anal! Jamais sentira dor tamanha, embora ela tivesse durado apenas um breve instante: terminada a evacuação, não sentiu mais nada. Nada.

Assustou-se com o ocorrido, mas, como a dor passou instantaneamente, optou por não procurar de imediato um médico, para poupar-se do constrangimento de contar o que acontecera.

Curiosamente, nas evacuações seguintes, Jeremias sentiu dores parecidas, ora mais, ora menos intensas. Depois de cerca de trinta dias, decidiu finalmente ir ao especialista e contar aquele seu drama íntimo. E contou. E o médico — experiente que era — sentenciou o diagnóstico antes mesmo de examiná-lo: tratava-se de um caso de fissura anal.

Fissura anal nada mais é do que uma pequena ferida, de surpreendente poder álgico, que fica na mucosa do ânus — como aquelas feridas que aparecem no canto da boca em dias frios e doem cada vez que se boceja — e que tem difícil cicatrização. Algumas se curam; outras tornam-se perpétuas.

Para azar de Jeremias, sua fissura anal tornou-se crônica.

Ah! Que sofrimento era cada evacuação! E que coisa biologicamente bizarra era a fissura anal: o ser humano sentir uma dor lancinante e insuportável, que, no entanto, é rápida demais para ser suportada, mas que acontece em toda e qualquer evacuação e que parece ser inamenizável.

Quão miserável era agora sua vida.

Jeremias continuava a ter tudo: dinheiro, conforto mundano e um bom casamento. Jeremias tinha tudo durante praticamente o dia inteiro. Mas nada daquilo importava durante o minuto ou dois, todo santo dia, que durava seu calvário. Jeremias sucumbiria, inevitável e diariamente, à dor lancinante que sua mazela lhe causava.

Jeremias era abastado, afinal. Procurou o auxílio devido e consultou os mais diversos e renomados proctologistas, que sempre davam o mesmo diagnóstico depois de tocá-lo com dedos de variados tamanhos. A fissura havia se cronificado, e o prognóstico não era outro senão o de ser eterna.

Que podia Jeremias fazer, então? Nada, aparentemente.

Certo dia, por volta das quatro da tarde, num momento de sol e brisa, Jeremias estava sentado na varanda de seu luxuoso apartamento, admirando a imensidão do mar à sua frente. O sol batia apenas em seus pés descalços, mas a brisa fresca com cheiro de sal tocava seu corpo seminu por inteiro. À sua frente havia uma mesa de centro, onde depositara a chave do carro novo e a carteira que escondia um cartão black e uma antiquada foto três por quatro da mulher, alguns meses mais jovem do que naquela data. Ah! Como era boa e bela a vida ali, em cada um de seus floridos detalhes.

A cada cinco ou seis minutos, contudo, a peristalse intestinal o lembrava de que se aproximava a hora da angústia. Jeremias retorcia-se, diaforético, por cerca de trinta segundos, para então gozar de mais cinco ou seis minutos de paz e serenidade.

Por fim, entretanto, a biologia o venceu, e ele se levantou e foi ao banheiro.

Talvez pelo tempo que passara se segurando, Jeremias dessa vez sentiu — verdadeiramente — a pior dor de toda a sua vida. Sentiu-se como se tivesse levado uma facada lenta e rígida na região mais íntima, e tal sensação foi endossada pela tinta escarlate que agora manchava a faustosa porcelana da sanita. Pela primeira vez desde o diagnóstico, o homem chorou de dor. Deitou-se no chão, imóvel, em posição fetal, e assim permaneceu por dez, quinze ou vinte minutos. A dor física já havia passado, claro. Mas a emocional, não.

Brigou com Deus. Chegou até a balbuciar que daria a alma para não ter mais de passar por aquilo.

E ficou ali.

Ao notar a falta do marido, a mulher acabou por encontrá-lo, frágil, no toalete, onde Jeremias jazia frio e catatônico sobre um tapete felpudo comprado numa feira de artesanato ali perto.

Apesar do dinheiro — e do bom plano de saúde — que tinham, o primeiro pronto-socorro que os dois encontraram foi um público e, diga-se, bastante descuidado.

Entraram e prontamente abriram uma ficha na espelunca.

Jeremias foi atendido depois de apenas uns vinte minutos de espera. A médica tinha jeito de recém-formada, porque se importava muito com o doente e fazia perguntas delicadas demais para o ambiente em que estavam. Ficou, todavia, sensibilizada com o caso e, embora não soubesse muito de proctologia — como ela mesma confessou, de forma inadvertida mas bem-humorada —, teve o cuidado de lhe dar o telefone de um antigo preceptor da faculdade, que a doutorinha julgava ser o melhor e mais zeloso proctologista que conhecera.

Jeremias foi também medicado com um antipsicótico intramuscular bastante dolorido e, em questão de algumas horas, estava melhor.

Agradeceu à equipe, deu o braço à esposa e foi para casa dormir.

Ao acordar, no dia seguinte, telefonou imediatamente para o médico recomendado, como num último alento de esperança, e marcou a consulta — pagando o dobro do preço pedido — para o mesmo dia, para não ter de esperar a vaga da semana seguinte. Foi ao consultório de táxi, porque ainda se julgava sonolento demais para dirigir.

Chegando à clínica, foi atendido por um gorducho carismático, cujos fios dourados acima do bigode entregavam uma vida de tabagismo pesado. Depois de uma breve consulta e de mais um toque retal, o doutor prometeu um tratamento inovador para o problema de Jeremias: tratava-se de uma cirurgia simples e de alguns dias de uma pomada de nome difícil, usada sobretudo para verrugas. Iquiminon? Imiquimol? Quimininol? Jeremias não conseguiu memorizar o nome, mas confiou no rotundo senhor. Pegou a data mais próxima possível e marcou o procedimento.

Passados poucos dias, mas muitas dores, Jeremias foi a um hospital particular charmoso, mas bastante pequeno, fazer a tal cirurgia. Surpreendentemente, o procedimento transcorreu de forma tranquila e rápida e, para sua preocupação, poucas horas depois da intervenção sentiu vontade de obrar. Foi tomado de um pavor cru e vil, que assumia toda a definição do conceito de verdadeiro e estava incrustado fundo na alma de Jeremias. Foi à latrina com medo. A pele suava, a carne estava fria. As mãos, trêmulas. O coração, palpitante.

Pensou em conter-se, mas evacuou. Evacuou e sentiu um incômodo, mas não sentiu dor.

E, ao longo das semanas seguintes, deixou de sentir até a amofinação anal que o procedimento causara.

Podia novamente evacuar sem desgosto, e sua vida voltou ao normal.

Jeremias era mais homem de fé do que homem religioso.

Sentado de novo na varanda, contemplando o mar, agora agitado pela combinação de lua cheia e fim de outono, Jeremias lembrou-se de supetão do dia em que chorou encolhido no banheiro do apartamento e, sabe-se lá por quê, lembrou-se também de que dissera que daria a alma para se ver livre daquele problema. Ora, estava afinal livre de sua fissura crônica, infinita e intratável, que fora resolvida milagrosamente por um médico qualquer, de consulta barata, e não pelos caríssimos especialistas que costumava frequentar.

Teriam sido mesmo o médico corpulento e a pomada mágica os responsáveis pela cura?

Jeremias agora se punha a esmiuçar os acontecimentos de sua vida! Pedira a Deus emoção e tivera emoção. Ruim, mas emoção. Dissera que daria a alma pela cura e fora então curado. Teria ele perdido, então, a própria alma em troca da ausência de dor durante suas necessidades fisiológicas?

Aquele pensamento atormentou Jeremias até o fim de seus dias.

Ele teve, enfim, uma segunda metade de vida tão boa quanto a primeira. Teve filhos e criou-os bem. Continuou abastado. A esposa foi de fato o amor de sua vida, e ele, o amor da vida dela. Viveu.

Jeremias acabou por falecer de uma quase súbita insuficiência cardíaca, secundária a uma dorzinha no peito que o incomodou por três dias, até que um cardiologista estudado pudesse lhe contar que era, na verdade, um infarto. Isso foi aos oitenta anos, talvez. Já era velho e achava que, na idade em que estava, tinha mais era que morrer mesmo. Vivera bem até ali, e isso era mais do que cria, em seu íntimo, merecer.

Um dia antes de padecer de fato, o já velho Jeremias sentiu de novo aquele medo indescritível que sentia quando ia evacuar nos tempos da fissura.

O medo agora era por outro motivo. Jeremias sentia na carne que aquela vida ia acabar e que em breve seria obrigado a desbravar o depois. Foi tomado de pavor ao imaginar a possibilidade de ir para um inferno por ter negociado a alma em troca de saúde anal.

Jeremias morreu feliz pela vida que tivera, mas preocupado com a vida que não tivera.

Mal sabia ele, contudo, que, em sua própria crença — que é a única que verdadeiramente importa —, a alma sequer era sua para que ele pudesse negociá-la. Foi Deus quem a soprou em seu corpo de barro, e a Ele ela voltaria quando o corpo acabasse.

fim